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PARTE 01 - OS MISTERIOSOS CRIMES DA PASSAGEM SUBTERRÂNIA

Atualizado: 21 de jul. de 2023

Anos atrás – enquanto realizava uma investigação pericial em local de morte violenta– tive a oportunidade e o privilégio de conhecer um senhor dotado de um extraordinário poder de raciocínio e profundo conhecimento prático da natureza humana e das leis da lógica. Tal aptidão lhe dava uma agudeza mental impressionante, sendo capaz de rapidamente identificar nuances e sutilezas onde outros só viam uniformidades e o óbvio. Em tal ocasião fiz uma grande amizade com essa pessoa, cujo nome era Felisberto, mas gostava que lhe chamassem apenas de Beto, sendo que sua profissão era a de coletor de material reciclável.


I-PREÂMBULO


Aqui começa a história de quando conheci Beto. Conforme já havia mencionado, nosso primeiro encontro aconteceu quando efetuava o levantamento da cena de um crime, ocasião em que tentava avaliar e interpretar as evidências com o fito de traçar a dinâmica do que havia acontecido e determinar as respectivas circunstâncias em que as mortes teriam sido perpetradas.


A primeira impressão era a de que naquele local teria ocorrido um homicídio seguido de suicídio, visto que o cadáver do homem ainda tinha a arma do crime em sua mão direita e tanto ele como a mulher foram alvejados por (tiros-DISPAROS DE ARMA DE FOGO), conforme ilustram as gravuras subsequentes.


HIPÓTESE DE HOMICÍDIO SEGUIDO DE SUICÍDIO
FIGURA 01 - HIPÓTESE DE HOMICÍDIO SEGUIDO DE SUICÍDIO

COMO A CENA DO CRIME FOI ENCONTRADA
FIGURA 02 - COMO A CENA DO CRIME FOI ENCONTRADA

Além de referida suposição, não se podia descartar a hipótese de duplo homicídio, visto que os corpos ali encontrados não foram os primeiros, a ponto de a imprensa ter levantado a tese de crimes em série, denominando-os de OS MISTERIOSOS CRIMES DA PASSAGEM SUBTERRÂNIA. A grande diferença é a de que os outros crimes, ao invés de tiros, foram praticados a facadas.


Em referida ocasião, entre outros populares presentes, percebi que o Delegado de Polícia se aproximou de uma pessoa humilde, que depois fiquei conhecendo como Beto e, rudemente, assim o indagou:


- O que você está fazendo aqui na cena do crime?

- Você conhece alguma das pessoas mortas?

- Sabe me dizer o motivo do homem ter matado a mulher?

- Se não sabe de nada, se retire, está atrapalhando a investigação.

No mesmo tom do Delegado e sem ficar para trás nas palavras, Beto rebateu:


Não estou aqui para fazer o trabalho da polícia, que parece não conseguir resolver o crime, mas sim recolhendo material reciclável e só me aproximei dos cadáveres por curiosidade, sendo que não conheço as pessoas mortas”.

Beto ainda complementou: “Desconheço o motivo das mortes, no entanto acredito que estou mais avançado nas investigações do que o senhor e toda a sua equipe, pois sei como as mortes ocorreram”.

Diante de referido contragolpe, que mais parecia uma bravata, todos que estavam próximos se calaram e voltaram as atenções para o Beto, inclusive eu, sendo que ele respondeu:


O homem que o senhor pensa que se matou, não tirou a própria vida e muito menos eliminou a mulher. Quem os matou foi uma outra pessoa, a qual obrigou o homem a se ajoelhar estando este a direita e bem próximo da mulher e em seguida atirou do lado direito da cabeça, um pouco acima da orelha (pavilhão auricular), sendo que a bala (projétil) saiu do lado oposto, em um ponto mais elevado do que entrou (em trajetória ascendente).


Apavorada, a mulher tentou fugir, mas foi alcançada pelo assassino, que a derrubou no chão e, então, deitado sobre o corpo da mulher, que se encontrava com as costas no chão, seu agressor efetuou um tiro no pescoço da vítima, do lado esquerdo (quase na nuca), que saiu na parte de cima da sua cabeça.


SEGUNDO  BETO, MOSTRA COMO O HOMEM TERIA SIDO MORTO, OU SEJA, COM UM TIRO DO LADO DIREITO DA CABEÇA, ESTANDO AJOELHADO AO LADO DIREITO DA MULHER
FIGURA 03 - SEGUNDO BETO, MOSTRA COMO O HOMEM TERIA SIDO MORTO, OU SEJA, COM UM TIRO DO LADO DIREITO DA CABEÇA, ESTANDO AJOELHADO AO LADO DIREITO DA MULHER


MOSTRA COMO A MULHER TERIA SIDO MORTA, SEGUNDO O BETO.
FIGURA 04 - MOSTRA COMO A MULHER TERIA SIDO MORTA, SEGUNDO O BETO.


SEGUNDO BETO, A MULHER TERIA SIDO ALVEJADA DO LADO ESQUERDO DO PESCOÇO, ESTANDO DEITADA, DE COSTAS, SOBRE O PISO E O AGRESSOR DEITADO DE BRUÇOS SOBRE O CORPO DA MULHER
FIGURA 05 - SEGUNDO BETO, A MULHER TERIA SIDO ALVEJADA DO LADO ESQUERDO DO PESCOÇO, ESTANDO DEITADA, DE COSTAS, SOBRE O PISO E O AGRESSOR DEITADO DE BRUÇOS SOBRE O CORPO DA MULHER


Beto, ainda concluiu: “As vítimas, provavelmente, chegaram em uma Toyota Hilux branca, com pneus carecas.”


- Frente as minuciosas e detalhadas declarações de Beto, o Delegado o inquiriu novamente: “Então você estava presente, viu tudo e sabe quem é o autor dos crimes”?


Não Senhor, já falei que não sei quem os matou e não estava presente quando tudo aconteceu”, respondeu Beto e complementou: “Mas posso lhe dizer que foram mortos ontem à noite, sendo que o assassino retornou a este local, hoje (por volta das 10:00h), ocasião em que mexeu nos cadáveres e mudou a posição do corpo do homem, quando então, plantou a arma do crime na mão direita da vítima masculina”.



MOSTRA O CENÁRIO DO CRIME ANTES DE SER MODIFICADO, NO ENTENDIMENTO DE BETO
FIGURA 06 - MOSTRA O CENÁRIO DO CRIME ANTES DE SER MODIFICADO, NO ENTENDIMENTO DE BETO

MOSTRA O CENÁRIO DO CRIME ANTES DE SER MODIFICADO, NO ENTENDIMENTO DE BETO	MOSTRA O CENÁRIO DO CRIME  DEPOIS DE SER MODIFICADO, COMO FOI ENCONTRADO PELA POLÍCIA.
FIGURA 07 - MOSTRA O CENÁRIO DO CRIME ANTES DE SER MODIFICADO, NO ENTENDIMENTO DE BETO MOSTRA O CENÁRIO DO CRIME DEPOIS DE SER MODIFICADO, COMO FOI ENCONTRADO PELA POLÍCIA.

- “Então o Sr. Sabe quem os matou ou está de brincadeira com a Polícia”, questionou o Delegado.

- “Não senhor, Deus me livre brincar com a Polícia e insisto em dizer que não sei quem os matou”, respondeu Beto.

Diante de referidas respostas, muito desconfiado, o Delegado ainda indagou se Beto tinha mais alguma coisa a acrescentar e obteve a seguinte resposta:

Sim, ainda tenho a acrescentar que quem os matou era um homem canhoto, provavelmente, jovem, de porte físico avantajado, que agora carrega um ferimento no pescoço (lado esquerdo) e, na ocasião do crime, vestia uma camisa azul”.




MOSTRA ONDE PODERIAM SER ENCONTRADAS LESÕES RECENTES NO ASSASSINO, SEGUNDO BETO
FIGURA 08 - MOSTRA ONDE PODERIAM SER ENCONTRADAS LESÕES RECENTES NO ASSASSINO, SEGUNDO BETO

Depois desta última resposta, acabou a paciência do delegado e este pediu que um dos agentes conduzissem Beto até a delegacia, pois precisava ouvi-lo em depoimento. Nesta ocasião, na qualidade de perito criminal e desejando mais informações para o meu laudo, antes de levarem Beto para a delegacia e em uma última tentativa, perguntei a ele:


Como você sabe de tudo isso, sem ter visto o crime e sem conhecer os envolvidos”.


Então, Beto ponderou: “O senhor não precisa que lhe explique, pois, as respostas estão à vista de todos nesta cena de crime, basta observação, atenção e astúcia, associados a lógica e a imaginação. O senhor somente não encontrará neste local os vestígios que me levaram a aceitar que o assassino deve estar ferido no lado direito do pescoço, que usava uma camisa azul e era de porte físico avantajado, visto que estas informações eu consegui enquanto efetuava minha atividade de coletor de material reciclável.


Nesta ocasião, o Seu Beto explicou como havia chegado em informações que não estavam disponíveis na cena do crime, explanando o que segue:


“Do outro lado da galeria subterrânea, preso a uma cerca de arame farpado, percebi um pedaço de tecido rasgado, na cor azul, sujo de sangue.



Mostra a cerca de arame existente depois da passagem subterrânea.
FIGURA 09 - Mostra a cerca de arame existente depois da passagem subterrânea.

“Além da cerca, em um casebre abandonado, encontrei uma camisa azul rasgada no ombro esquerdo, com mancha de sangue por escorrimento na gola e uma mancha de sangue, na forma da palma de uma mão direita, decalcada na porção inferior da parte de trás da camisa, tudo no interior de um saco de lixo”.



MOSTRA O CASEBRE ONDE FOI ENCONTRADO O SACO DE LIXO E O PEDAÇO DE TECIDO AZUL PRESO A CERCA
FIGURA 10 - MOSTRA O CASEBRE ONDE FOI ENCONTRADO O SACO DE LIXO E O PEDAÇO DE TECIDO AZUL PRESO A CERCA

MOSTRA A CAMISA, VISTA POR TRÁS, QUE ESTAVA DENTRO DO SACO DE LIXO
FIGURA 11 - MOSTRA A CAMISA, VISTA POR TRÁS, QUE ESTAVA DENTRO DO SACO DE LIXO

“Foi aí, com base em tais percepções, que presumi a possibilidade de que uma pessoa ferida teria passado por ali e se machucado na cerca. Todavia, ao observar melhor, averiguei que o mais obvio seria que a mancha de sangue (em forma da palma de uma mão) – posicionada nas costas da camisa – fosse de outra pessoa, que não o dono da camisa, visto que que quem estivesse usando a camisa não conseguiria alcançar tal posição e, pelo tamanho da camisa (EXTRA G), lhe ficaria muito grande, pois era uma marca de palma de mão pequena, mas compatível com uma mão feminina.


Não tive oportunidade de observar sob as unhas da mulher morta, mas não descarto a hipótese de haver pele e, se tiver, provavelmente o autor do crime foi arranhado do lado esquerdo do pescoço pelas unhas da mão direita da mulher.


Quanto ao casal ter chegado em uma caminhonete branca (Toyota Hilux), com pneus carecas, calculei com base no fato de que desde ontem à noite, por volta das 21:00h, um veículo, com tal característica, se encontrava estacionado no acostamento e na contramão da via, bem perto deste local, com um dos pneus furados, com o macaco e chave de rodas ao lado.


O Sr. Não deve ter percebido porque tem uma grande quantidade de veículos de curiosos estacionados nas proximidades, querendo saber o que aconteceu aqui e o senhor preferiu me questionar e deixar as outras pessoas de lado.”

Ainda, sem saber a origem de suas palavras, Beto concluiu:


“...Você vê, mas não observa...”


Terminada a sua explanação, quando estava sendo levado para a viatura policial, ao passar por mim e sem chamar a atenção, Beto mostrou um homem de porte avantajado, misturado entre os populares, usando um boné encobrindo os olhos e disse: “Acho que aquele é o assassino”.


Então, discretamente, consegui ver que do lado esquerdo do pescoço do suspeito havia arranhões, ocasião em que, na mulher que examinava, verifique a presença de material orgânico (aparentemente pele humana) sob as unhas de sua mão direita, além de sangue impregnado nesta mão, como Beto havia previsto.


MOSTRA O SUSPEITO, COM ARANHÕES NA LATERAL ESQUERDA DO PESCOÇO, MISTURADO AOS POPULARES QUE OBSERVAVAM A CENA DE CRIME.
FIGURA 12 - MOSTRA O SUSPEITO, COM ARANHÕES NA LATERAL ESQUERDA DO PESCOÇO, MISTURADO AOS POPULARES QUE OBSERVAVAM A CENA DE CRIME.

Juntando as informações prestadas por Beto com alguns dos vestígios encontrados no cadáver feminino e as características do suspeito (porte físico e lesões), alertei a autoridade policial sobre a possibilidade de o assassino ter retornado a cena do crime e estar observando o trabalho policial, prontamente os agentes da autoridade policial detiveram o suspeito, o qual, sem ter como contestar as evidências físicas apontadas por Beto e outras angariadas nos exames perícias, na delegacia, admitiu o que segue:


Confissão do acusado

“Que referidas mortes não foram as primeiras que cometeu naquele local e que seu modus operandi consistia em, durante a noite, deixar objetos pontiagudos sobre a pista, tais como pedaços de madeira com pontas de pregos, tendo por propósito furar pneus de veículos que, porventura, passassem naquele trecho deserto de rodovia. Quando conseguia seu intento, aguardava o condutor ou o passageiro do veículo terminar de efetuar a troca do pneu furado e, então, sob a ameaça de uma faca os abordava e os levava para aquela galeria, onde os roubava e se houvesse algum tipo de reconhecimento por parte das vítimas as matava.

Em seguida, voltava até onde havia deixado o veículo das vítimas e o usava para regressar para casa. No dia seguinte levava o veículo roubado para um local de desmanche e em outras vezes para um receptador, que conduzia o veículo para a Bolívia.


Quanto as vítimas do crime em questão, procedeu da mesma forma, com a diferença de não ter usado faca, visto ter encontrado um revólver na posse do motorista, do qual se apossou e, sob ameaça de morte, levou o casal até aquele local deserto (galeria subterrânea), tomou os documentos e pertences. Então, com medo de ser descoberto, os matou com o revólver da vítima masculina e carregou a arma consigo.


Ainda informou que, ao voltar para apropriar-se do veículo das vítimas, percebeu que o motorista não havia concluído a troca do pneu furado, visto que a caminhonete não tinha pneu sobressalente. Sem poder usar a caminhonete para voltar para sua casa, pois havia chegado no local de carona, saiu a procura de um local para pernoitar, quando encontrou um barraco abandonado, existente nas proximidades, sendo que no caminho, ao cruzar uma cerca, enroscou no arame farpado a gola da camisa, a qual vestia por cima de outra. Ao chegar no barraco abandonado, tirou a camisa rasgada e suja de sangue, que estava por cima (ficando com a debaixo) e descartou a rasgada em um saco de lixo.


No dia seguinte, após ter dormido em referido barraco, por volta das 10:00h, resolveu regressar a cena do duplo homicídio e plantar a arma do crime na mão do cadáver do sexo masculino, de forma que aparentasse uma briga de casal, onde o homem tira a vida da mulher e depois se mata, visto que a mesma pertencia a vítima masculina, o que reforçaria a tese de homicídio seguido suicídio, usando a própria arma”.



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No próximo post continuamos com os exames periciais do caso..

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